Entre o jaleco, o julgamento e a inveja

Há profissões que passam pela vida social como sombras discretas. Outras, porém, entram em cena como personagens trágicos — e,
não raro, caricatos. O médico pertence a esta última categoria: ora elevado à condição de oráculo, ora reduzido à figura de suspeito
habitual. É amado com fervor quase religioso e odiado com igual intensidade. Uma dualidade que diz menos sobre o médico e mais
sobre a natureza profundamente contraditória de quem o observa.

O médico é, antes de tudo, depositário de expectativas impossíveis. Espera-se dele precisão de máquina, compaixão de santo,
disponibilidade de servo e resistência de aço. Deve saber tudo, errar nunca e, de preferência, fazê-lo com um sorriso tranquilo e uma
pontualidade quase mítica — ainda que a realidade lhe ofereça corredores lotados, sistemas falhos e um cansaço que não cabe em
prontuário.

Quando acerta, cumpriu apenas sua obrigação.
Quando falha, revela-se — aos olhos de muitos — não humano, mas culpado.
Mas há um ingrediente menos confessado nessa equação: a inveja.
Inveja do jaleco que, aos olhos de fora, parece conferir autoridade imediata.
Inveja do suposto status — esse lugar simbólico onde o médico é visto como alguém “que venceu”.
Inveja da ideia (nem sempre real, mas persistentemente imaginada) de uma renda confortável, de uma vida estável, de uma posição
social distinta.

E, talvez mais profundamente, inveja do papel de herói — essa fantasia coletiva de poder salvar, decidir, intervir no destino.
É curioso: a mesma sociedade que romantiza o médico como figura quase épica, também o observa com um olhar enviesado, como
quem suspeita de privilégios indevidos. Admira-se o brilho, mas questiona-se o preço; reverencia-se o símbolo, mas desconfia-se do
homem.

E então, quando algo falha, a inveja encontra terreno fértil para se transformar em julgamento.
O médico, que já carregava o peso das expectativas, passa a carregar também o peso das projeções alheias. Se tem sucesso, “é porque
ganha bem”. Se demonstra segurança, “é arrogante”. Se mantém distância emocional, “é frio”. Se se envolve demais, “é pouco profissional”.
Há sempre um veredito pronto — moldado menos pelos fatos e mais pelos sentimentos que orbitam a figura que ele representa.

Admira-se o médico porque ele toca o que mais assusta: a possibilidade da perda, da dor, do fim. Ele entra onde poucos entram — no
território íntimo do corpo e da vulnerabilidade. Sua presença acalma, sua palavra orienta, sua decisão pode mudar destinos. Há, nisso,
um fascínio quase ancestral: o médico como aquele que detém um saber que beira o mistério.

Mas odeia-se o médico por razões igualmente humanas.
Odeia-se o atraso na consulta, como se o tempo do sofrimento alheio pudesse ser organizado com rigor matemático. Odeia-se a
linguagem técnica, que soa como ocultação, quando muitas vezes é apenas a tentativa imperfeita de traduzir o complexo. Odeia-se,
sobretudo, a limitação — essa falha imperdoável de não ser onipotente.

E há ainda um elemento mais sutil, quase inconfessável: o médico lembra, o tempo todo, que somos finitos.
Ele nomeia o que preferiríamos ignorar. Dá forma ao invisível. Confirma, com exames e palavras, aquilo que o corpo já sussurrava.
E ninguém gosta de quem revela verdades incômodas, ainda que o faça com delicadeza.
Assim, o médico oscila entre o pedestal e o banco dos réus.

Num dia, é o salvador que “tirou da morte”; no outro, o negligente que “não viu o óbvio”. Entre esses extremos, há também o alvo
silencioso de comparações, ressentimentos e fantasias sociais sobre sucesso, poder e reconhecimento.
Talvez a grande ironia seja esta: exige-se do médico que seja mais do que humano — e, ao mesmo tempo, não se tolera que ele
usufrua sequer das recompensas humanas que se imagina que possua.
E, no entanto, ele retorna no dia seguinte.

Veste o jaleco — esse curioso símbolo que, para uns, é capa de herói; para outros, emblema de privilégio — e volta ao seu ofício
ambíguo: cuidar de quem o admira, de quem o critica e de quem, silenciosamente, o inveja.
No fundo, o médico é o espelho de uma sociedade que não sabe muito bem como lidar com seus próprios limites — nem com os
seus próprios desejos. E, como todo espelho fiel, acaba sendo amado pela esperança que reflete, odiado pela verdade que revela…
e invejado pelo que parece representar.

Escrito por Roberto R. Montiel

Compartilhar:

Outros Artigos:

CTO Indaiatuba faz 40 anos!

O CTO foi idealizado por Kelly Humberto Annicchino em 1984, junto com os sócios Dr. José Inácio Travizanuto, Dr. Rogério Maschietto e Dr. Paulo César

Varizes

Todos queremos ter pernas saudáveis, bonitas e poder exibi-las, sem vergonha ou preocupação. No entanto, não é somente por uma questão estética que devemos cuidar