Quatro décadas enfrentando o HIV: Em que pé estamos?

Pandemia passou de uma palavra quase esquecida para uma realidade diária, nos últimos anos.
Contudo, ao voltarmos 40 anos no tempo além desses dois últimos, temos o início de outra pandemia que se arrasta há quatro décadas, transformando vidas, sistemas e visões de saúde, políticas públicas, tecnologia médica e a maneira como nos organizamos socialmente.

Desde que foi descrita na década de 80 como uma doença que acometia rapidamente indivíduos do sexo masculino e que levava o corpo a um estado de fragilidade e de consumo, possibilitando o aparecimento de doenças oportunistas, o vírus da imunodeficiência humana, HIV, modificou paradigmas da humanidade. O agente etiológico da síndrome da imunodeficiência humana adquirida (AIDS), foi descoberto por Gallo e Montagnier e passou a ser a “letra escarlate” das pessoas que passavam a viver com ele. 

Passando por períodos de grande estigmatização de pessoas homossexuais, que eram consideradas uma população de risco, a infecção pelo HIV foi fonte da maior parte da organização do sistema único de saúde, o SUS, ao longo da construção da política pública para controle desse agravo. Nesses últimos 40 anos de pandemia, um dos maiores avanços foi o entendimento de não haver grupos de risco, mas sim comportamentos de risco, como a presença de múltiplos parceiros e relações sexuais desprotegidas.  

Com cerca de 37 milhões de pessoas vivendo com o vírus ao redor do mundo, o Brasil ocupa destaque abrigando 966 mil pessoas nessa condição, atualmente. Infelizmente, após um breve período de estabilidade, a transmissão do vírus voltou a aumentar, especialmente entre homens jovens de 15 a 29 anos, uma população que desde que nasceu conviveu com o vírus como parte de sua realidade. É justamente essa convivência com o vírus, que graças a evolução nas formas de tratamento, de modo pacífico, que diminui o limiar de alerta para os riscos de saúde, associados à presença do HIV sem controle. 

Avanços terapêuticos e o futuro do HIV

Os avanços terapêuticos, que do objetivo de um tratamento único, monoterapêutico, passou para um tratamento múltiplo, objetivando o bloqueio de acesso do vírus ao sistema imune por diversas vias, tem gerado especulações grandes com relação ao futuro. De uma sentença de quase condenação na década de 80, saltamos hoje para uma esperança de cura, em que procedimentos análogos à transplantes têm gerado novo ânimo na comunidade científica, que vislumbra a possibilidade de existir uma cura para o HIV. 

Enquanto isso não se torna um fato concreto, o que sabemos é que as opções terapêuticas hoje disponíveis são capazes de tornar a carga viral um hospedeiro indetectável, o que é sinônimo de intransmissibilidade. De mesmo modo, o uso do preservativo como única forma de prevenção deu lugar à possibilidade de esquemas de profilaxia de pré e pós exposição, como estratégias de controle associadas à detecção e tratamento precoces. Os impactos disso podem ser observados no aumento da longevidade de pessoas que vivem com o HIV hoje ao redor de todo o mundo. 

Além disso o sopro de esperança de um mundo livre do HIV parece se tornar mais próximo quando pensamos nas possibilidades de prevenção primária para a transmissão do HIV: vacinas.

Por sua grande mutabilidade, essa sempre foi uma das dificuldades de estabilizar um imunizante para esse vírus. Contudo, desde a prova de viabilidade realizada em amostras experimentais, no fim do ano passado, para um imunizante com tecnologia de RNA mensageiro semelhante à utilizada no combate à Covid-19, essa esperança parece, pouco a pouco, se materializar mais.

Em janeiro de 2022, pesquisadores americanos ligados à farmacêutica Moderna, iniciaram um trial de fase 1 para teste da vacina contra o HIV. Nesse estudo, 56 pacientes saudáveis e sem o vírus irão receber esquemas com o imunizante, de forma que 48 receberão duas doses, 36 receberão doses de reforço em associação e 8 receberão apenas doses de reforço. No momento atual, a intenção dos pesquisadores é avaliar a segurança do imunizante, de modo direto, e de modo indireto sua eficácia, com um seguimento de seis meses. Nunca uma estratégia de prevenção primária esteve tão próxima de se tornar realidade para o HIV. 

Na prática, as estratégias de prevenção ainda continuam sendo: utilização de preservativos, detecção e tratamento precoces, educação em saúde, utilização de profilaxia pré exposição para grupos com comportamento de risco e profilaxia pós exposição para grupos com exposição de risco. Contudo, muito em breve esperamos trazer resultados parciais desse trial, tão logo estejam disponíveis.

Dr. Marcelo Gobbo Junior – Médico de Família e Comunidade – Portal Pebmed

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