O autoritarismo em indivíduos e na sociedade

A ideia de liberdade como característica fundamental da condição humana é central no pensamento de Fromm, bem como dos filósofos existencialistas de seu tempo. Afastado da natureza, o homem seria capaz de autoconsciência, razão e imaginação, sendo estas capacidades imprescindíveis à condição de homem livre.

De outro lado, a liberdade pode significar um peso ou fardo. A perda de papéis bem estabelecidos e definidos na sociedade levam a insegurança e angústia. Tal se daria na vida adulta da mesma forma que se observa tal acontecimento na vida da criança. A independência dos pais resulta em liberdade e insegurança, sendo fonte de grandes dificuldades para algumas pessoas. Muitos não conseguem superar a angústia da separação e se mantêm em vínculos simbióticos com os pais ou outras figuras eleitas ao longo da vida adulta.

De acordo com Fromm, a ansiedade básica de solidão e insegurança levariam a mecanismos de fuga ou defesa e que seriam a conformidade, destrutividade e o autoritarismo.

A conformidade seria um meio de fugir do sentimento de insegurança e isolamento por meio de um comportamento de abandono da individualidade. O indivíduo tentaria se adaptar às expectativas e exigências do outro na tentativa de buscar amparo, companhia e proteção.
Por meio do autoritarismo a pessoa poderia buscar a exploração do outro. O domínio seria uma forma de obter segurança, baseada na expectativa de que a dominação proporcionaria a certeza do não abandono. Tal poderia se dar por uma relação de poder sádica ou mesmo masoquista.

A destrutividade, por outro lado, não implicaria na busca do outro, mas em seu aniquilamento. Tal mecanismo se dá em indivíduos, grupos ou nações. O sentimento de impotência e isolamento levaria a um desejo de destruição na tentativa de recuperar o poder perdido. Na maioria das vezes o desejo de destruição se dá apenas na imaginação e no mundo da fantasia.

Fromm empenhou-se na discussão da importância da personalidade e do caráter no comportamento humano e postulou que haveria orientações de caráter produtivas e não produtivas. Entre as orientações produtivas, haveria três dimensões: trabalho, amor e pensar. Saúde mental, desta forma, seria a capacidade de lidar com pessoas e coisas de forma apropriada, por meio da capacidade de receber e preservar relações e coisas. Na ausência de uma saudável capacidade de trabalhar, amar e pensar, poderiam se desenvolver transtornos de personalidade, sendo três as mais graves, de acordo com Fromm.

A necrofilia, longe do termo psiquiátrico de uso restrito, representaria uma personalidade que levaria ao comportamento destrutivo. Seriam pessoas que exibiriam comportamento racista, intimidador e belicista. Haveria uma predisposição a atitudes de destruição, terroristas e o prazer na prática da tortura e destruição do outro. Tal se verificaria em comportamentos radicais, muitas vezes encontrados no extremismo político, religioso ou criminoso em seus diversos graus. Um comportamento genocida seria a manifestação dessa característica de necrofilia em sua maior intensidade.

Outro transtorno descrito por Fromm, e frequentemente observado na clínica, seria o narcisismo maligno. Tal condição seria diferente do narcisismo leve ou benigno que se identifica em pessoas sadias. Em sua manifestação de forma intensa e maligna, o indivíduo valoriza-se de forma intensa e despreza o outro. A preocupação excessiva com suas supostas qualidades morais levaria o narcisista a uma crença distorcida, na qual acreditaria ser uma pessoa superior às outras pessoas. Tal crença levaria a uma auto imagem grandiosa, independentemente da necessidade de provar seu valor por meio de atitudes concretas, podendo levar a rompantes de raiva e agressividade quando submetidos a críticas e evidências de que a realidade se distancia de sua auto imagem.

Haveria ainda uma terceira possibilidade de desenvolvimento de uma personalidade patológica caraterizada pela simbiose incestuosa, na qual o indivíduo exibiria uma fixação intensa na mãe ou figura materna de eleição. Ocorreria uma dependência excessiva entre o dependente e a figura provedora. Haveria uma perda de identidade, chegando mesmo a uma situação de “fusão” ou “mistura” entre ambas personalidades, gerando
medo e insegurança.

Entre as principais ideias de Fromm, destaca-se a hipótese que o autoritarismo estaria extremamente vinculado ao medo e à insegurança e a procura pela certeza e poder.

Dr. Francisco Ruiz – Psiquiatra CRM 55.945 RQE 33.048

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