Karen Horney e o caráter neurótico

Karen Horney e Erich Fromm foram psicanalistas que tiveram a ousadia de desafiar os princípios da psicanálise freudiana e enfatizar a importância de fatores culturais no desenvolvimento da personalidade e na determinação de um conceito extremamente importante na Psicologia que foi a “Personalidade Neurótica”.

De acordo com Horney, em A Personalidade Neurótica de Nosso Tempo, “se conhecermos as condições culturais em que vivemos, temos uma boa probabilidade de conseguir uma compreensão bem mais profunda do caráter especial dos sentimentos e atitudes normais”. Em sua avaliação, Freud teria atribuído pouco valor às questões culturais e acreditado que impulsos, instintos e nossos padrões de relações de objeto seriam determinados pela biologia e seriam inerentes àquilo que se convencionou chamar de natureza humana, o que levaria a generalizações que não corresponderiam
à realidade e dificultariam uma compreensão acurada das motivações do comportamento humano em diferentes contextos culturais.

Horney acreditava ser de grande importância a caracterização do chamado comportamento neurótico e defendia que este não poderia ser definido apenas a partir de sintomas como fobias, depressões ou sintomas somáticos. Da mesma forma, não se poderia definir neurose e doenças mentais exclusivamente pelo critério de um comportamento anormal, uma vez que o padrão de comportamento considerado normal pode variar de uma cultura para outra e mesmo dentro de uma mesma cultura pode variar em função de classes sociais. Acrescentava ainda que perturbações nas relações com outras pessoas também não poderiam servir como critério de anormalidade, mesmo que estas, incluindo o comportamento sexual, fossem frequentes no indivíduo considerado neurótico, uma vez que suas manifestações poderiam ser de natureza sutil e difíceis de identificar.

As características essenciais a todo comportamento neurótico, de acordo com Horney, seriam o que chamou de rigidez de reações e uma discrepância entre potencialidades e realizações. Sendo assim, o comportamento anormal se manifestaria por reações inflexíveis, independendo da diversidade de situações enfrentadas, uma vez que determinadas reações, ainda que intensas, podem se justificar pela realidade de determinados acontecimentos. Igualmente a improdutividade, bem como o sentimento de infelicidade, podem não estar relacionados a situações impeditivas concretas, mas a sentimentos inexplicáveis e sem base fática. As duas características ressaltadas seriam, todavia, acompanhadas de um fator essencial que seria a
ansiedade e as defesas construídas contra esta.

A psicanalista Karen Horney deixou claro que se referia a neuroses como neurose de caráter, afirmando que se tratava de uma deformação de caráter, ainda que seus sintomas pudessem ser pertinentes ao quadro de uma “neurose de situação”. Tal não deve ser confundido com transtornos de personalidade tal qual se definem nos dias atuais. Sua afirmação visava assinalar uma posição distinta de Franz Alexander que entendia que a expressão “neurose de caráter” se aplicava às neuroses que não apresentassem sintomas clínicos.

A grande questão, apresentada e discutida por Horney, era sobre a possibilidade de se falar em uma “personalidade neurótica de nosso tempo”, conforme título de seu livro. Tal questionamento se faz muito atual na medida em que muito se fala sobre “o mal do século”. Seria a ansiedade este mal? Seria a depressão?

Sua compreensão da neurose de caráter envolvia o conhecimento e a concepção de que traços difíceis de caráter seriam prévios ao surgimento de quaisquer sintomas ou dificuldades diante de uma situação concreta vivida. Tal se observa com facilidade na clínica ao se identificar que uma situação difícil ou estressante poderia ser superada com maior ou menor dificuldade por alguns indivíduos, mas se traduz em um sentimento de grande “golpe” na história de vida de alguns indivíduos suscetíveis.

Continuando em sua pesquisa sobre os conteúdos dos conflitos que se mantém presentes nas diversas manifestações do comportamento neurótico, Horney afirma que estes diferem apenas de forma quantitativa em determinada cultura. Verifica-se, de acordo com a autora, que tais conflitos resultam da dificuldade em nos debatermos com questões como competição, medo de fracassar, isolamento emocional e falta de
confiança nos outros e em si mesmo.

A tese fundamental de Horney seria de que a semelhança nos problemas enfrentados e nas dificuldades listadas indicaria que tais problemas foram criados pela cultura e não pela natureza humana. Afirmou ainda que em outras culturas as forças motivadoras e os conflitos seriam diferentes daqueles observados em nossa sociedade.

Tal afirmação não pode ser justificada pelos argumentos apresentados, porém não se pode negar que a cultura determinará o modo como tais conflitos se manifestarão na conduta de seus indivíduos, determinando reações e comportamentos de defesa.
Sendo assim, o conhecimento e o esclarecimento de tal “modo” terão implicações diretas e importantes no processo psicoterapêutico.

Francisco Ruiz – Médico Psiquiatra

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