Karen Horney e o caráter neurótico – Parte II

Assim como Freud, Horney acreditava que a infância era a época mais frequente onde se originariam os conflitos neuróticos, embora pudessem ocorrerem em qualquer fase da vida.
Eventos relacionados à falta de carinho e amor genuínos seriam fatores desencadeadores de comportamentos e respostas classificadas como neuróticas.
De acordo com Horney, não seria um fato ou experiência única que levaria a um desenvolvimento e comportamento neurótico. Um conjunto de experiências levaria a comportamentos inadequados na busca de segurança. Desta forma, atitudes do adulto não seriam repetições de comportamentos infantis, mas resultariam de um caráter neurótico que haveria se estruturado a partir de vivências da infância.
A existência no ambiente familiar de uma estrutura que proporcionasse segurança e satisfação, estando presentes o amor genuíno e uma disciplina saudável, seriam as condições ideais para o desenvolvimento da criança. Ao contrário, a ausência deste amor genuíno e a presença de comportamentos de dominação, negligência, superproteção ou rejeição levariam a um sentimento classificado por Horney como “hostilidade básica”. Esta hostilidade, muitas vezes reprimida e não expressa como raiva, levariam a sentimentos vagos de insegurança, denominados como “ansiedade básica”. Este poderia ser definido como um sentimento de estar isolado e desamparado em um mundo percebido como hostil.
Conforme Horney, em A Personalidade Neurótica de Nosso Tempo (1937), a hostilidade básica e a ansiedade básica estão “inextricavelmente interligadas”. Acrescenta que a ansiedade seria a força motriz das neuroses e estaria presente ao longo da vida. Ainda que um indivíduo neurótico se preocupe em dar uma fundamentação racional à sua ansiedade, a hostilidade básica e desejos ocultos provocariam uma sensação de perigo. A ansiedade básica não seria a própria neurose, mas um “solo fértil” para que esta possa se desenvolver.
Os conceitos de hostilidade básica e ansiedade básica teriam importante implicação no processo de psicoterapia e análise, uma vez que Horney considerava inútil a tentativa de explicação dos medos dos pacientes pelo método da persuasão. O trabalho terapêutico, para a psicanalista Karen Horney, assim como para todos os outros psicanalistas, seria realizado por meio da descoberta do significado que situações atuais teriam para o neurótico.
Horney identificou quatro tipo de mecanismos ou reações que seriam utilizados para que as pessoas se protegessem do sentimento de estarem sozinhas em um mundo potencialmente ou realmente hostil. Estes mecanismos ou “defesas” seria a afeição, submissão, poder e o afastamento.
Importante destacar que muitos psicanalistas valorizaram o conceito de “defesa”, criado por Sigmund Freud, e o desenvolveram numa perspectiva própria. Alguns até se utilizaram de um mecanismo específico como elemento central na criação de uma teoria de personalidade. Tal
se dá com Adolf Adler ao destacar a busca de poder como elemento estruturante no desenvolvimento da personalidade, em contraposição à libido, tal como sempre defendeu Freud.
A afeição pode se referir ao amor autêntico ou a um meio de defesa. Como defesa pode ser marcada pela busca de amor por intermédio da autoanulação, complacência, oferecimento de bens materiais ou favores sexuais.
Um segundo mecanismo de defesa seria a submissão, por meio da qual os neuróticos se submeteriam a regras, desejos ou exigências na busca de afeição. Essa busca poderia se dar em relação a pessoas, ideologias ou instituições.
A busca de poder, prestígio ou bens materiais também poderia ser uma forma de se proteger contra a ansiedade e lutar contra a hostilidade real ou imaginária projetada nos outros, bem como o medo imaginário da humilhação ou da pobreza.
Outro mecanismo de defesa seria o afastamento das pessoas em geral ou de alguns grupos em particular, meio pelo qual as pessoas neuróticas se tornariam “independentes” e estariam a salvo de sofrimentos e dissabores. Este tipo de defesa frequentemente levaria ao isolamento social e privação de relações necessárias a um sentimento de bem-estar e pertencimento à sociedade.
A utilização de tais comportamentos ou mecanismos de defesa não seriam necessariamente sinônimo da existência de um comportamento neurótico, mas a depender da intensidade, permanência ao longo do tempo e de seu uso compulsivo, tais atitudes poderiam levar ao estabelecimento de uma neurose. Pessoas “normais” poderiam se utilizar destes mecanismos e o fazem frequentemente, porém é seu caráter compulsivo que revela um aspecto neurótico, podendo acarretar sofrimento existencial. Podem se manifestar durante um longo período e muitas vezes impedir que a pessoa os reconheça como nocivos e possa deles se desvencilhar.
Ao contrário do que muitas vezes se diz, o neurótico não gosta de sofrer. Ocorre, de acordo com Horney, que a pessoa não consegue identificar a presença destes mecanismos de defesa e a busca de reduzir a ansiedade básica os leva a manter comportamentos de hostilidade generalizada, baixa autoestima, busca desesperada pelo poder e sentimentos inadequados de superioridade.

Dr. Francisco Ruiz – Médico Psiquiatra

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