GESTALT-TERAPIA E A CONTRIBUIÇÃO DA FENOMENOLOGIA

A Psicologia da Gestalt e a Gestalt-terapia são por vezes tomadas como institutos semelhantes, porém não têm o mesmo significado.

A Psicologia da Gestalt se refere a explicação ou descrição de fenômenos perceptuais, representando uma rejeição ao artificialismo de grande parte da análise psicológica do início do século XX. Surgiu com o artigo de Max Wertheimer sobre o movimento aparente, em consequência de estudos do próprio Wertheimer, Wolfang Köhler e Kurt Koffka na Alemanha em 1912.

Um precursor da ideia central da Psicologia da Gestalt foi o médico, filósofo e fundador da Psicologia Experimental Wilhelm Wundt, que defendia o princípio da síntese criadora e deu origem ao conceito de que o todo não seria igual à soma das partes. Desta forma a Psicologia da Gestalt se refere a um campo de estudos da forma como o homem percebe o mundo e a realidade.

A Gestalt-terapia, por sua vez, se refere a um método clínico ou método de psicoterapia, incluindo teoria e técnicas de ajuda a pacientes que procuram por auxílio diante de dificuldades de vida e, em busca de crescimento emocional.

Ambos campos de estudos têm sua fundamentação na fenomenologia, pensamento do campo da filosofia europeia que representava uma nova proposta para enfrentar problemas filosóficos decorrentes do empirismo e psicologismo.

A fenomenologia foi um pensamento e uma abordagem filosófica desenvolvida pelo filósofo e matemático austríaco Edmund Husserl, que propunha um método de investigação com o propósito de apreender o fenômeno de forma rigorosa e direta, tal como se processa na consciência. Este pensador acreditava que se deveria promover um retorno às coisas mesmas, livre de teorias que poderiam distorcer a percepção da realidade.

Husserl entendia que haveria uma estrutura elementar da percepção que seria formada pelo ato de perceber e pelo conteúdo percebido. Haveria desta forma um ato de pensar intrinsecamente ligado ao conteúdo pensado, ou como um ato de imaginar ligado ao imaginado, ou um ato de lembrar em conexão necessária com um conteúdo lembrado.

O objetivo da fenomenologia seria superar e transcender a dicotomia entre “mundo externo” e “mundo interno”, sendo este último um conceito muito caro à Psicanálise. O meio proposto por Husserl seria a chamada “redução fenomenológica”, que implicaria na suspensão de crenças e teorias, para que a pessoa se concentrasse na experiência das coisas percebidas, tal como esta realidade se apresenta na consciência.

O método fenomenológico tornou-se desta forma extremamente importante para a Gestalt-terapia, a qual valoriza a ideia de que o sentido das coisas não estaria nas coisas em si, mas na relação destas coisas com a percepção observada, ou seja, na relação entre a percepção do observador e o objeto observado.

Outro aspecto importante do método fenomenológico na Gestalt-terapia se dá pelo entendimento de que o observador influencia e tem implicações no mundo observado. O eu, portanto, tem influência e é influenciado pelo contexto do mundo. O campo vivencial seria, portanto, um todo em mundo de estímulos e ações do eu sobre o mundo.

A fenomenologia envolveria ainda uma ideia importante na percepção e no campo vivencial que é a questão temporal.

O presente seria o tempo da percepção de forma necessária e exclusiva, ainda que o pensado, imaginado ou lembrado se referisse ao passado ou futuro. Quando falamos de lembranças, tal ato se dá no presente, da mesma forma que ao ensarmos ou falarmos de possibilidades futuras, estamos realizando tais ações no presente.

A ideia da importância do tempo presente, tal como proposto pela fenomenologia, seria conhecida por uma expressão que se tornou muito conhecida e sintetiza tal abordagem psicoterapêutica denominada “Aqui e Agora”.

Tal expressão teria sido cunhada por Otto Rank, um psicanalista que foi um dos prediletos de Freud e posteriormente teria sido expulso da Associação Psicanalítica Americana por influência do próprio Freud.

A fenomenologia representa um importante alicerce da teoria e prática da Gestalt-terapia, tal como foi desenvolvida por Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman. Importantes conceitos derivados do método de investigação fenomenológica formam o arcabouço desta linha de trabalho em psicoterapia. Importante ressaltar ainda que a Gestalt-terapia não representa uma tentativa de invalidação das contribuições da Psicanálise ou da Terapia Comportamental, mas uma crítica do alcance e dos limites de modelos explicativos do funcionamento psíquico e do comportamento humano.

Dr. Francisco Ruiz – Psiquiatra – CRM 55945 | RQE 33048

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