Erich Fromm e as dicotomias existenciais

Assim como Karen Horney, Erich Fromm integrou um grupo de psicanalistas cujas teorias poderiam ser agrupadas no que ficou
conhecido como Psicanálise Culturalista. A ideia central e comum a todos era de que os fatores sociais e culturais desempenhariam
um papel de extrema importância no desenvolvimento psíquico do indivíduo.

Fromm teria enfatizado a importância de fatores da história, economia e estrutura de classes em sua teoria de personalidade.
Seu enfoque teria sido, mais do que a psicologia individual, as características da cultura que influenciariam o ser humano e que
poderiam possibilitar sua compreensão.

Acreditava Fromm, em uma visão evolucionista, que o ser humano teria perdido o contato próximo com a natureza e com os instintos animais, desenvolvendo a capacidade de pensar, imaginar e planejar. Tais capacidades teriam um efeito compensatório, porém seriam causa de conflitos e daquilo que denominaria “dilema humano”.

Assim como ocorre com grande parte de pensadores, filósofos e psicanalistas, as experiências de infância teriam marcado o jovem Erich Fromm e determinado o rumo de suas preocupações e seus estudos. Sua formação judaica e a leitura de textos do Velho Testamento com mensagens de paz e harmonia universal contrastavam com a realidade do capitalismo e da guerra. Fromm nasceu em março de 1900 e tinha 14 anos quando se iniciou a Primeira Grande Guerra. Ainda jovem, tomou conhecimento do suicídio de uma jovem artista após a morte do pai, desejando ser enterrada com ele.

Esta vivência perturbadora o teria feito refletir sobre as relações entre a psicologia individual e o universo cultural no qual vivemos. Dedicou-se ao estudo de Freud e Marx, ainda que pensadores diferentes da cultura e comportamento humanos, na tentativa de entender a relação entre indivíduos e sociedade. Fundou o Instituto Alemão de Psicanálise em Frankfurt. Diante da ameaça do nazismo, mudou-se para a Suiça e posteriormente para os Estados Unidos com outros psicanalistas europeus, entre eles Karen Horney.

A teoria de personalidade e suas teorias a cerca do humano se formam a partir de várias influências, valendo destacar o ensino dos rabinos humanistas, as ideias de Marx e Freud e as filosofias orientais como zen-budismo.

A ideia central do pensamento de Fromm a cerca da natureza e do funcionamento mental do humano é que este vive “dicotomias existenciais”, decorrentes da perda de contato com o mundo natural e do desenvolvimento do pensamento e capacidade de avaliação. Esta nova função seria assim um benefício, mas provocaria dificuldades no enfrentamento da vida. As dicotomias seriam próprias da cultura e da vida em sociedade e não poderiam ser anuladas, sendo parte integrante da vida dos seres humanos, os quais reagiriam a elas de diversas formas.

A principal dicotomia seria acerca da questão da vida e da morte. O ser humano sabe que vai morrer, mas constrói a ideia da vida após a morte, no afã de fugir da ideia de que nossas vidas se encerram após a morte.

Uma outra dicotomia seria a busca da autorrealização completa, ainda que saibamos que nossas vidas tem duração limitada e o tempo é curto na conquista desse ideal. Como alternativas para esse dilema o humano pensaria a possibilidade de realização após a morte ou a conquista da completude nesta vida.

A terceira dicotomia essencial seria o desafio da solidão e da união. A ideia de felicidade e a união com o outro se confronta inevitavelmente com a possibilidade da solidão. Não há propriamente uma solução para esta questão, mas o enfrentamento da questão é necessário e inevitável.

Dr. Francisco Ruiz – Psiquiatra

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