A Esposa de Tchaikovsky

Buscando investigar – com claros toques de imaginação – o desastroso casamento entre o célebre compositor (Biron) e Antonina Miliukova que durou na prática apenas três meses, mas condenou ambos a um martírio até o fim de suas vidas, o roteiro do próprio Serebrennikov tem início com a morte de Tchaikovsky e a chegada da viúva (ou, como perceberemos, “viúva”) ao velório, quando é recebida com choque e ressentimento pelos presentes.

A partir daí, voltamos no tempo até o momento em que a moça vê o músico pela primeira vez e se dedica a conquistá-lo, transcrevendo cartas de amor presentes em antologias, jurando lealdade absoluta e oferecendo sua herança como parte do processo de convencê-lo (algo que acaba selando o acordo). Porém, como o longa faz questão de sugerir através de simbolismos óbvios como a vela que se apaga durante o casamento e a aliança que custa a entrar no dedo do noivo, aquele era um matrimônio destinado ao fracasso desde sua raiz, já que, além de valorizar sua solidão para compor, Tchaikovsky oferece tantos indícios de sua homossexualidade que chamá-los de “indícios” é em si um eufemismo.

De modo geral, porém, o que A Esposa de Tchaikovsky retrata é um exercício de tortura mútua e de egoísmo reciprocado quase na mesma intensidade; em última análise, Antonina e Tchaikovsky viram, um no outro, algo que lhes interessava possuir (o dinheiro dela; a presença dele) mesmo que às custas do sacrifício da(o) parceira(o) – ou talvez eles genuinamente tenham se recusado a ver o óbvio, que era o sofrimento colossal que causariam e experimentariam quando o casamento inevitavelmente fracassasse. Assim, se torna difícil ter muita pena da dupla, o que compromete a eficácia dramática do longa.

Já de um ponto de vista formal, é necessário reconhecer o ótimo trabalho de recriação de época (e os figurinos em particular) e, claro, as fabulosas elipses executadas através de planos-sequência inventivos em seus movimentos de câmera simples (mas excelentes) e de mudanças na luz, como no instante em que vemos Antonina na estação de trem se despedindo do marido e, em seguida, esperando seu retorno e – meu favorito – aquele em que testemunhamos a morte e o velório do advogado com o qual ela acaba se relacionando e que culmina com a perda de seu precioso piano.
Amarrado por um plano final que usa movimentos de dança para completar o arco da protagonista, A Esposa de Tchaikovsky talvez não evoque o peso da tragédia que retrata tão bem a ponto de sofrermos pelo casal, mas é ambicioso o suficiente para apreciarmos o exercício que resulta deste esforço.

Pablo Villaça | cinemaemcena.com.br

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