A esperança vem do engajamento

Não há mais como ignorar o interesse de agentes fortalecidos em lobbies e até em instrumentos legais, atraídos pela medicina enquanto negócio. O protagonismo do médico há muito tempo tem sido paulatinamente enfraquecido e a entrega de atenção qualificada está ficando em segundo plano.
A problemática ganha amplitude e complexidade diante do ambiente digital disruptivo oferecendo novas perspectivas, novos produtos, mais complexidade, mais celeridade, mais capilaridade, mais escala, mais controle, mais, mais e mais. Com tudo isso, ocorre progressiva e irreversível reconfiguração da prática da medicina, que põe à prova seu exercício ao longo de todo seu espectro de acontecimento. É o médico a se apresentar como um produto que se vende em mídias sociais, é a escolha do profissional pela aparência, é a cobiça da indústria, é a oferta de seguros, é a antecipação da consulta no Google, é a proliferação de clínicas populares que oferecem o médico barato e ganham em combos de exames a critério do cliente, e assim por diante.
Novas dimensões trazem novas realidades e novas perspectivas que pressionam os Conselhos médicos pelo necessário e urgente repensar de seus dispositivos normativos, dentro de parâmetros legais, sobe o guarda-chuvas constitucional que abriga a todos.
Observamos uma progressiva e inquietante desmobilização, promovida por intervenções coordenadas que massificam a formação e uma falta de ações realistas nas grades curriculares médicas com objetivo de preparar os egressos para a realidade. Enquanto isso, ocorre um sistemático assalto ao ato médico, impondo às Entidades Médicas, flagrantes preocupações com o exercício da medicina e a segurança da população. A atenção multidisciplinar e a integralidade, são conceitos ainda distantes da realidade e a questão ética desafiadora.
Adentramos 2023 com um sistema de Saúde que vem subfinanciado há décadas, e que não tem o hábito de dialogar diretamente e francamente com a Classe Médica. A história tem mostrado que ela tem sido vítima de graves ingerências em suas prerrogativas, em manobras populistas. A única esperança que nos resta é o fortalecimento das associações de classe e dos conselhos de medicina através da participação engajada de cada um de nós. Sozinhos, nada acontece mas juntos, muito podemos.

Dr. Gabriel C. Alvarenga – Diretor de Defesa Profissional da APM Indaiatuba

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