20 anos depois – Um novo tratamento farmacológico para a Doença de Alzheimer

Em fevereiro de 2019 fui convidada por esse jornal para escrever um texto sobre a doença de Alzheimer. Como membro da ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer) desde 2004, sempre soube que o principal obstáculo para o enfrentamento dessa doença é o Estigma. Por esse motivo o título do texto foi “A doença que mata a esperança”. A Doença de Alzheimer(DA) é vastamente conhecida como uma condição
sem cura e que rouba da pessoa o que ela tem de mais valoroso, suas memórias, suas características pessoais.

Apesar de ter sido descrita há mais de 120 anos, das grandes evoluções nos conhecimentos a respeito da fisiopatologia, do destacado papel da prevenção, ficamos por mais de 20 anos sem novas perspectivas de tratamento farmacológico. E o negativismo ao seu redor se avolumava a cada estudo aberto com resultados frustros como aconteceu com Aducanumabe (só aprovado pelo FDA-Food and Drug Administration nos Estados Unidos) e mais recentemente com o Gantenerumabe.

Mas no final de 2022, esse cenário começa a mudar. Foi publicado no New England Journal of Medicine o estudo Clarity AD, mostrando os efeitos de uma nova droga, o Lecanemab.

O acúmulo de proteína beta-amilóide é uma das lesões neuropatológicas que caracterizam a doença de Alzheimer (DA). A diminuição do acúmulo dessa proteína, principalmente as protofibrilas solúveis, tem demonstrado resultados promissores. O Lecanemab é um anticorpo monoclonal humanizado, que se liga com alta afinidade às protofibrilas Aβ evitando a sua toxicidade para o tecido cerebral e acúmulo em placas. Nesse ensaio clínico randomizado e controlado por placebo em 1.795 pacientes com Comprometimento Cognitivo Leve(CCL) e DA inicial, a medicação intravenosa Lecanemab, na dose de 10mg/kg 2 x por semana, removeu os depósitos de beta-amilóide do cérebro dos pacientes que receberam essa medicação. Além disso, os pacientes que receberam Lecanemab apresentaram menor declínio cognitivo num período de 18 meses comparados aos pacientes que receberam placebo, o que motivou a aprovação dessa medicação pelo FDA.

A comunidade científica recebeu com otimismo esse estudo, mas sabemos que temos muitos desafios antes que essa medicação esteja disponível para o tratamento. O primeiro deles está no diagnóstico preciso e precoce. Essa medicação está indicada para pessoas com CCL e DA leve e não para os casos de demência em fase moderada e avançada. Dispomos hoje de poucos especialistas e os métodos para o diagnóstico (presença de β-amilóide no córtex cerebral detectada por PET- Positron Emission Tomography amilóide ou por exame de líquor) ainda são caros e localizados apenas em grandes centros. Essa medicação ainda não está disponível no Brasil.

Por fim, os tratamentos anti-amilóde podem causar lesões cerebrais frequentes na ressonância magnética, conhecidas como ARIA (Amyloid-Related Imaging Abnormalities). Essas lesões são na maior parte das vezes reversíveis e assintomáticas, porém incluem alterações como micro hemorragias e são algumas vezes sintomáticas e com o Lecanemab isso não foi diferente.

Ainda precisaremos de tempo para observar os efeitos a longo prazo e segurança dessa medicação. Mas inegavelmente temos pela primeira vez, depois de uma longa espera, uma nova expectativa, um novo caminho sendo trilhado para o tratamento da Doença de Alzheimer.

Dra. Celene Queiroz – Geriatria – CRM 94.191 RQE 46.123

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