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Oscar reforça debate sobre o Alzheimer

Publicado em 25/02/2015 às 13h40

Categoria: Especial

Autor: Não definido - Não definido



Oscar dá força ao debate sobre o Alzheimer

 

Julianne Moore esbanja talento interpretando Alice – mulher com Alzheimer que, apesar de nova para ser portadora da doença, tem estágio de rápida evolução. Excelência e domínio sobre o personagem garantiram à atriz o lugar de favorita ao Oscar meses antes da premiação. Não somente, também lhe rendeu estatuetas importantes até chegar ao tapete vermelho.

 

Aos 54 anos, Moore dá vida à professora de linguística que teme esquecer-se de palavras, nomes e piadas, sentindo vergonha de si mesma. Aos poucos o sentimento de derrota surge, deixando a narrativa mais dolorosa ao doente e aos espectadores. Infeliz e precisando-se adaptar-se às desorientações e a inevitável falha de memória, durante uma cena Alice diz ao marido que preferia ter câncer ao ter Alzheimer.

Baseado no romance de Lisa Genova, Para SempreAlice concentra-se no processo de despersonalização, decorrente da evoluçãoda doença, e a espera diária pelos efeitos mais pesados da patologia, perdendoa noção de quem é; o que já fez; e quais são os amores de sua vida. Além disso,também é colocada na tela de cinema como a família deve aprender a lidar com asnovas condições do indivíduo – enquanto alguns vínculos são fragilizados,outros se fortalecem.

 

O filme estreia no Brasil em 12 de março eexibe o drama de uma esposa, mãe de três filhos e praticante de palavrascruzadas atingida pelo declínio de suas funções cognitivas. Os sinais aparecemaos poucos, enfraquecendo sua identidade segura e culta. O grande mérito destalonga metragem é de colocar a enfermidade como ponto inicial, sendo porta deentrada para discutir temas universais.

No Brasil e no mundo, o Alzheimer é um problema degrande dimensão e pouca discussão e conscientização. Segundo a AssociaçãoBrasileira de Alzheimer (Abraz), cerca de 20 milhões de brasileiros têm mais de60 anos de idade (IBGE, 2010) e 6% deles sofrem da doença, sendo o tipo dedemência mais comum. Com o envelhecimento populacional, aumenta o número decasos em todo o mundo e estima-se que 44 milhões de pessoas atualmente sãoportadores dela. Em 2050, pode chegar a 106 milhões, quando a faixa etária demaior risco, após os 65 anos, representará 22% da população mundial. NosEstados Unidos, é a quarta principal causa de morte de idosos entre 75 e 80anos – atrás apenas do infarto, derrame e câncer.

 

Sintomas

A enfermidade provoca declínio das funçõesintelectuais, diminuindo a capacidade de trabalhar e de realizar adequadamente atividades rotineiras. A priori, a memória recente é afetada. Com a progressão,os déficits aumentam e afetam a capacidade de orientação, compreensão eatenção. “Em casos mais graves, o paciente é totalmente dependente, precisandode ajuda em ações simples como alimentar-se, vestir-se e higienizar-se”,explica dra. Sonia Brucki, membro do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva da Academia Brasileira de Neurologia.

O neurologista Márcio Balthazar, secretário do Departamento, orienta às famílias que respeitem as deficiências dos doentes enão confrontem o déficit de memória; distraí-los e acalmá-los é o melhor caminho.

Além da confusão e da desorientação, há manifestações, ainda, de ansiedade, agitação, alucinação e desconfiança. O senso crítico e a tomada de decisões são danificados. No que se refere àalteração de personalidade, Balthazar defende que “os traços apenasacentuam-se, sobretudo a teimosia. Por exemplo, se a pessoa é mais introvertida, a depressão pode aparecer conforme a intensidade da doença”.

 

“Quando o diabetes está descontrolado, há um avançosignificativo da doença. Quando os níveis estão muito elevados, a noçãocognitiva é alterada, colaborando para a piora rápida da demência”, explicaNorberto Anízio Ferreira Frota, presidente do Departamento da ABN.

 

A demência ocorre progressivamente. Aoalcançar níveis mais sérios, o paciente passa a se perder em locais conhecidos,a emagrecer, a sofrer de incontinência urinária e fecal, além de problemas decomunicação, com movimentos e fala repetitiva, distúrbios do sono e vagância.

 

Para evitar os problemas com o sono – tantoo excesso, quanto a falta – a neurologista Sonia Brucki explica que os atos dedormir e acordar devem ocorrer em horário adequado,eliminando os cochilosdurante o dia. Evitar bebidas com cafeína no horário da tarde e desfrutar o solmatinal, que age como importante regulador do sono.

 

“Todos, população e profissionais da saúde,precisam ter consciência de que as alterações cognitivas não fazem parte doenvelhecimento normal. Aos primeiros sinais, o médico deve ser procurado pararealizar o rastreamento da doença”, ressalta Brucki.

 

Tratamento

 A terapêutica medicamentosa ameniza eretarda os efeitos da doença, visando à correção do desequilíbrio químico docérebro. Os sintomas psicológicos e comportamentais são tratados com remédiosespecíficos e controlados, indicados para o controle da agitação,agressividade, alteração do sono, ansiedade, depressão, apatia, alucinações edelírios.

Os horários e as doses devem ser rigorosos. Éimportante que qualquer alteração ou reação inesperada seja comunicada aomédico que acompanha o tratamento para os possíveis ajustes. É veementementeproibido testar modificações por conta própria, o que acarretaria em prejuízono controle dos sinais da doença. 

Métodos alternativos são empregados para melhorar aqualidade de vida e o bem-estar do paciente, como terapias ocupacionais,fisioterapia e fonoaudiologia. Atividades de estimulação cognitiva beneficiam apreservação de habilidades, favorecendo sua funcionalidade.

 

É importante manter o contato social com amigos e familiares, tal como a prática de exercícios físicos que favorecem acoordenação, força, equilíbrio, flexibilidade e percepção sensorial.

 

A recomendação é a de estimular a atenção, a memória, a linguagem e o pensamento lógico, conservando o cérebro ativo deforma ampla e frequente. Porém, o objetivo não é reverter, mas, sim, permitirum funcionamento melhor perante aos novos parâmetros.

 

Fatores de Risco

Estudo sueco publicado em outubro de 2014 narevista científica Neurology chegou à conclusão que, após 40 anos detrabalho, mulheres ciumentas, ansiosas e mal-humoradas são mais suscetíveis adesenvolver o Alzheimer.

Saindo do viés clássico de análise - fatoresgenéticos, neurológicos, cardíacos e escolaridade – o foco das pesquisadorasfoi personalidade e como ela afeta o comportamento e o estilo de vida, bem comoa reação ao estresse. Acompanharam 800 mulheres de 46 anos, em média, eaplicaram testes de neuroticismo (facilidade do indivíduo de se desestabilizaremocionalmente). Ao final, 19 desenvolveram a doença – sendo que 16 delas eramintrovertidas e estressadas.

“Mulheres com menos contato social estão no grupode risco, assim como as depressivas”, informa Frota.

Realizado por cientistas franceses e canadenses,uma pesquisa publicada em setembro de 2014, no periódico BMJ, verificouque o uso por mais de três meses de calmantes à base de benzodiazepínicos(Rivotril, Valium, Lexotan e Lorax) eleva em 51% o risco de desenvolver adoença. Participaram 8.980 pessoas com mais de 66 anos. Destas, 1.796 tinham odiagnóstico da enfermidade; mais da metade usaram benzodiazepínicos em algumafase da vida.

 

Os remédios com base neste composto, apesarde eficientes no tratamento à ansiedade e insônia, são de curta duração. Aosque utilizaram os medicamentos por menos de três meses, não houve relatos damesma associação.

 

Em relatório anual divulgado pela AssociaçãoInternacional da Doença de Alzheimer (ADI), lançado também em setembro passado,apontou que o diabetes eleva a chance de desenvolver Alzheimer e outrasdemências em até 50%. Segundo o informe, hábitos de vida estão associados aosriscos evitáveis; portanto, controlar o diabetes é fator importante paradiminuir a probabilidade de apresentar a doença.

 

A relação entre as doenças é de via direta eindireta. Na primeira, há receptores de glicose e insulina em regiões docérebro responsáveis pela memória. Ou seja, o excesso desses componentes,decorrentes do diabetes, pode danificar essas áreas. Na indireta, as artériascerebrais são comprometidas, piorando quadros de neurodegeneração – causadostambém pela obesidade, sedentarismo e tabagismo.

 

De acordo com o documento, apenas um quarto dapopulação mundial reconhece a correlação entre excesso de peso e a demência –já o papel da atividade física só é reconhecido por 23% das pessoas. O controlede doenças crônicas é instrumento efetivo para a prevenção do Alzheimer.

 

“Tratar os fatores cardiovasculares e osproblemas de humor e depressão; elevar convívio social; praticar atividadefísica rotineira, pelo menos 150 minutos semanais; e dieta saudável, com poucacarne vermelha e carboidrato, e bastante peixe, legumes, frutas e verduras sãoalguns hábitos que amenizam a doença”, orienta o Dr. Norberto.

 

Novas Descobertas

Em novembro de 2014, no Japão, houve o teste de umnovo método para detectar o Alzheimer em sua fase inicial com resultadopromissor. Segundo os cientistas, a identificação acontece por meio do acúmuloda proteína cerebral beta-amiloide no sangue, reconhecidamente uma dasprincipais causas dessa demência.

Liderada pelo Prêmio Nobel de Química de 2002,Koichi Tanaka, o experimento monitorou 62 pacientes com idades entre 65 e 85anos, com o uso da Tomografia por Emissão de Positrons (PET) e examessanguíneos. Com essa descoberta, haveria o rastreamento da doença no controlemédico rotineiro, sem a necessidade de submeter-se aos testes atuais por PET edo líquido cefalorraquidiano – complexos e dolorosos.

 

“O diagnóstico precoce é fundamental, pois quantoantes souber do problema, melhor o prognóstico e mais cuidados para melhorar aqualidade de vida do paciente e da família. Quando o tratamento começa nasprimeiras manifestações, reduz a intensidade dos sintomas psiquiátricos”,informa Balthazar.

 

Prioridade Mundial

Em 2012, a Organização Mundial da Saúde e a ADIdivulgaram um relatório convocando os governos e os desenvolvedores depolíticas públicas a creditar essa patologia como prioridade mundial da saúdepública. O documento intitulado ‘Dementia: A Public Health Priority’(‘Demência: Uma Prioridade da Saúde Pública), aborda os principais estudosnesse âmbito, além de ressaltar práticas na luta contra a doença e estatísticasde diversos países, embasando o discurso de que esse é um problema que afetatodo o planeta, independentemente da situação socioeconômica.

Menos de 5% dos 194estados membros da OMS executam planos nacionais de combate à demência. Porisso, com o texto, há expectativa de maior adesão dos países, adotando-o comobase no planejamento e implantação de ações.

No mesmo ano dedivulgação do parecer, o Ministério da Saúde assinou a Portaria 703 instituindoao Sistema Único de Saúde (SUS) o Programa de Assistência aos Portadores daDoença Alzheimer. Com isso, Centros de Referência em Assistência à Saúde doIdoso garantem atendimento hospitalar e diagnóstico; visita domiciliar deprofissionais da saúde; tratamento acompanhado por equipe multidisciplinar;programa de orientação e treinamento de familiares; e medicação gratuita.

As drogas oferecidaspara tratamento da doença são rivastigmina, donepezil e galantamina; amemantina não faz parte da lista do governo. Para ter direto à medicação, énecessária avaliação clínica, exames laboratoriais e de imagem, com prescriçãofeita por profissionais da rede pública – com exceção de São Paulo, onde podeser assinada por um médico particular, desde que preenchida a documentaçãosolicitada, constatando o processo de retirada. Há aproximadamente 30 Centroscadastrados no país atualmente.

“Se não adotarmosestratégias para reduzir as incidências e mostrar que os hábitos para prevençãosão aplicáveis não só ao idoso, mas na meia idade, a partir dos 40 anos, osnúmeros tendem a se multiplicar, graças ao envelhecimento populacional. Acultura precisa mudar, com a conscientização e incentivo do sistema público. Seo governo não entender o impacto econômico e social que o Alzheimer gera,sofreremos muito nos próximos anos”, conclui o coordenador do DepartamentoCientífico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da ABN.

 

 

Fonte: AconteceComunicação e Notícias

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