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Indaiatuba, 30 de Novembro de 2021
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Publicado em 22/11/2021 às 17:47:52
Categoria: Artigo
Representação Cultural e Tensão Social na Epidemia


O surgimento de uma nova epidemia gera grande apreensão em toda sociedade, o que evidentemente inclui a parcela leiga da população e a própria comunidade médica. A demora na identificação do agente causador da doença e principalmente no tratamento adequado levam a população a formular suas próprias teorias e igualmente levam médicos a buscarem suas próprias explicações para o fenômeno. 

São situações recorrentes e se mostraram verdadeiras na gripe espanhola, assim como na COVID- 19. De acordo com Adriana Gular (“Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro”, História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.12, n. 1, p. 101-42, jan-abr. 2005): “No processo de interpretação da moléstia, pode-se perceber o resgate de teorias da tradição galênica e miasmática, entre outras já consideradas superadas pelo conhecimento médico”. 

Afirmava o Dr. Acácio Pires (“A gripe e a terapêutica”, Revista Saúde, jan-fev 1919): “os médicos não podiam ignorar a ação curativa da natureza, nem contestar a cura espontânea das doenças”. Tal posicionamento nos remete, por analogia, a ideias que circularam no início da pandemia COVID-19 no Brasil, quando se falou em “imunidade de rebanho” e na capacidade de resistência a infecções pelo povo brasileiro. 

O estranhamento e a confusão gerada por uma pandemia, além de tensões no meio médico, acabam por gerar tensões na sociedade. De acordo com Richard Evans (Epidemics and ideas, Cambridge, University Press, 1992), tensões sociais costumam ocorrer em momentos de crise política, social ou econômica, diante de mudanças em estruturas estatais com o objetivo de controlar a doença e os descontentamentos gerados por ela. De fato, descontentamentos em grande escala foram observados na adoção de medidas de prevenção adotadas pelos diferentes entes públicos no enfrentamento da COVID-19 pelo Estado no Brasil. Ressalte-se a necessidade de intervenção do Supremo Tribunal Federal que garantiu a Estados da Federação e Municípios, autonomia na adoção de medidas. 

Para além dos fatos estatisticamente comprovados de doentes, internações e mortes existe a representação cultural da doença e epidemia. Tal representação não é uniforme em todo o tecido social, a qual, conforme Adriana Goulart “é fruto de uma intensa e complexa negociação social, raramente livre de uma certa dose de coação cultural, que incorpora e reflete valores e relações de status”. 

No enfrentamento da gripe espanhola houve uma atitude persistente no sentido de defender a benignidade da doença, bem como na crença de que a epidemia seria de curta duração e efeitos limitados, ainda que a realidade se impusesse, demonstrando descaso, negligência e incompetência na administração da crise pelo Governo. 

Ainda que a administração sanitária da epidemia fosse parte de um posicionamento coletivo do Governo, a imprensa concentrou sua crítica na pessoa do Sr. Carlos Seidl, da Diretoria Geral de Saúde Pública. Conforme Adriana Goulart, “de acordo com muitos jornais da época, a maior demonstração de incompetência do governante foi ter confiado a chefia da Direção de Saúde Pública a um funcionário “cretino, relapso e sedicioso”, que apenas contava tempo para sua aposentadoria, e cuja “inveterada  inércia e dogmatismo de velho burocrata” possibilitaram que a epidemia fosse recebida “festivamente pela Saúde Pública” na capital nacional, deixando a população  entregue à sua própria sorte”. 

As críticas à atuação do Governo Federal e ao Diretor de Saúde Pública avolumavam-se e chegou a pedir a censura dos jornais, pedido este que não prosperou, evidentemente. Não pode ser considerada mera semelhança, mas uma repetição da história as críticas feitas à imprensa na abordagem da divulgação de notícias relacionadas à COVID-19, quando algumas vozes desesperadas chegaram a noticiar que a gravidade da pandemia em nosso país era fruto de uma atitude de oposição ao Governo e que seria uma ficção o número de doentes, mortes e sofrimento causados pela doença. 

Não obstante as tentativas de calar a imprensa, as críticas ao Governo Federal permaneceram intensas, classificando-se o posicionamento como uma tentativa de revogar leis sanitárias e desfazer a obra de Oswaldo Cruz, transformando-se a saúde pública em uma organização “burocrática e ilusória” (Anais da Câmara dos Deputados, 28.10.1918, p. 721-4).