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Indaiatuba, 30 de Novembro de 2021
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Publicado em 25/10/2021 às 10:17:20
Categoria: Artigo
“Nunca, em toda minha vida, vi algo...”


A declaração acima não diz respeito à COVID-19, como escutamos todos os dias. A referência é de uma testemunha ocular da “gripe espanhola” que assolou o Brasil e o mundo. As lembranças são de Nelson Antônio Freire, conforme entrevista em 11.09.1990 (GOULART, A. da C., 2005):

Foi uma coisa pavorosa! Nunca, em toda minha vida, vi algo que chegasse perto daquela sassânida infernal! Não tinha na cidade, rua em que pelo menos em uma casa, a família inteira fenecera. Em muitas, todos da família estavam acamados e cabia a quem pela rua passasse alimentar e dar remédios... O pior de tudo é que estava morrendo gente aos borbotões e o governo dizia nas ruas e nas folhas que a gripe era benigna. Certo dia, as folhas noticiaram mais de quinhentos óbitos, e mesmo assim a gripe era benigna, benigna, benigna, benigna. (...) As mortes eram tantas que não se dava conta do sepultamento dos corpos (...). Quando a assistência pública vinha recolher os cadáveres, havia trocas dos podres pelos mais frescos, era um cenário mefistofélico...”

O caos sanitário gerou um caos político e social, gerando um clima de medo, desconfiança e desinformação. A oposição política ao governo Wenceslau Braz, bem como parte da imprensa não demoraram a denunciar a situação de calamidade vivida pela população. A lentidão no estabelecimento de políticas sanitárias adequadas expôs as limitações que já havia em termos de atenção à saúde da população, além da escassez de recursos. Conforme Goulart, o atendimento à população foi suprido pela esfera privada, com a atuação de igrejas, escolas, clubes e da Cruz Vermelha Brasileira.

A dificuldade em se estabelecer medidas de prevenção e profilaxia da doença não tardaram a surgir em 1918 na mesma medida da pandemia COVID-19. Conforme Azevedo, Do Estudo Clínico da Gripe, Tese, Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1919: “Alguns médicos, sem saber que tipo de estratégia de combate a estabelecer para a moléstia reinante, passaram a defender que o isolamento dos doentes “se impõe como a primeira medida de higiene”. 

Havia o desafio de contornar uma série de dificuldades econômicas, políticas e sociais. Conforme Goulart, “exigências de quarentenas e isolamentos e que decretavam a inviabilidade de uma sociedade moderna (1918), urbanizada e industrializada que encarava tais estratégias (de isolamento) como antinaturais. Os contratempos se voltavam ainda para a questão das liberdades civis, pelo autoritarismo de tais medidas”. 

A propósito do termo “estratégias antinaturais”, ainda que novas denominações não fossem conhecidas, há de se pensar que argumentos como “imunidade de rebanho” e teorias do tipo “todos vão se contaminar”, deveriam fazer parte da argumentação daqueles que se posicionavam contra as medidas de isolamento. Possivelmente muitos devem ter argumentado que o isolamento prejudicaria a economia gerando recessão, fome e desemprego. De fato, para o governo da época, tais atos não eram “nem possíveis, nem legais, nem científicos”, conforme Carlos Pinto Seidl, A propósito da Pandemia de Gripe de 1918: argumentos e fatos irrespondíveis, RJ, Bernard Frères. 

Ainda que em 1918 não se dispusesse de grupos de WhatsApp e outras mídias da atualidade, a divergência ou simples discursos contraditórios imperavam nos círculos médicos. “Gripe mostra”, “simples e corriqueiro resfriado”, “limpa-velhos” eram alguns adjetivos para a nova moléstia, ainda que outros acreditassem que se tratava de uma entidade nosológica nova ou confundida com outras doenças como tifo, cólera e impaludismo. O fato é que a doença era pouco conhecida, uma vez que poucos estudos se dedicavam a este tipo de doença. 

Ainda de acordo com Goulart: “O diagnóstico é a chave da experiência com a doença, investindo-a de significado social e desencadeando a necessidade de respostas específicas que acarretam sua inserção em uma complexa rede de negociações sociais, frequentemente conflituosas”. 

Diante da divergência e de posições contraditórias dos médicos, a população fez suas próprias escolhas com chás, emplastros e “beberagens” diversas, nada muito distante dos conselhos que circularam quanto à profilaxia da COVID-19, como chá de gengibre, suplementos vitamínicos e coisas do gênero. 

A questão da terapêutica médica diante de uma doença nova reflete igualmente as dificuldades enfrentadas por médicos na atual pandemia. Conforme Liane Maria Bertucci, Influenza a Medicina Enferma, Tese de doutoramento, Campinas, Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 2002, “A impossibilidade de atender às demandas impostas pela epidemia e às expectativas da população resulta em grande perda de capital político e prestígio social para vários segmentos da classe médica, contribuindo para o estabelecimento de uma ciranda terapêutica, que pode ser compreendida também como um dos efeitos dessa perda”.