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Indaiatuba, 27 de Outubro de 2021
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Publicado em 22/09/2021 às 10:09:09
Categoria: Artigo
A gripe “espanhola” chega ao Brasil


As consequências de uma pandemia se manifestam no campo social e político, além da dimensão específica em saúde pública, conforme apresentamos no artigo anterior. Além das reações políticas ao combate à pandemia, haviam interesses em “esconder” a doença, já que estas doenças sempre foram encaradas como prejuízos políticos por determinados governantes.

No caso específico da gripe espanhola não foi diferente, a começar pelo próprio nome ou apelido “gripe espanhola”. Não há uma explicação definitiva para a adoção do nome “espanhola”. 

Uma possível explicação seria de que na Espanha não se negavam os efeitos da pandemia, ao contrário de outros países que procuravam “minimizar” os efeitos da pandemia e dos impactos em termos de mortes e sofrimento. 

Outra explicação teria sido o fato de que a Espanha adotou uma postura de neutralidade na Primeira Grande Guerra, inclusive com uma atitude de simpatia por parcela do Governo Espanhol em relação à Alemanha, o que teria provocado uma reação de irritação por parte da Inglaterra, além da negação dos impactos da pandemia por uma instituição de peso como a Royal Academy of Medicine de Londres. Entretanto, conforme Adriana Costa Goulart (GOULART, A. da C.: Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 12, n. 1, p. 101-42m jan-abr. 2005), poucos acreditavam em sua origem espanhola em meados de setembro de 1918.

A censura imposta por autoridades militares à divulgação de números e do alcance da pandemia foi outro aspecto digno de nota em relação à doença. A doença afetou a capacidade de combate dos exércitos, e também foi conhecida como “febre das trincheiras”. Afetou sobretudo os planos do Exército Alemão, sob o comando do General Erich Von Ludendorf, os quais poderiam levar à vitória da Alemanha na guerra, o que o levou a pedir demissão diante das críticas recebidas. 

No Brasil, e mais especificamente no Rio de Janeiro, capital da República, a doença era tratada com atitudes de negação e até mesmo de deboche, conforme a publicação do artigo 537 do periódico “A Careta”:

A influenza espanhola e os perigos do contágio — esta moléstia é uma criação dos alemães que a espalham pelo mundo inteiro,por intermédio de seus submarinos, (...) nossos oficiais, marinheiros e médicos de nossa esquadra, que partiram há um mês, passam pelos hospitais do front, apanhando no meio do caminho e sendo vitimados pela traiçoeira criação bacteriológica dos alemães, porque em nossa opinião a misteriosa moléstia foi fabricada na Alemanha, carregada de virulência pelos sabichões teutônicos, engarrafada e depois distribuída pelos submarinos que se encarregam de espalhar as garrafas perto das costas dos países aliados, de maneira que, levadas pelas ondas para as praias, as garrafas apanhadas por gente inocente espalhem o terrível morbus por todo o universo, desta maneira obrigando os neutros a permanecerem neutros.

De acordo com o inspetor sanitário da Diretoria Geral de Saúde Pública, José Paranhos, conforme Fontenele, 1919, apud Adriana Goulart, a censura imposta por militares levou à desinformação da população. O Serviço de Profilaxia do Porto foi alvo de crítica, porém este não tinha como realizar a desinfecção de todos os navios que chegavam à capital federal, além de sofrer críticas quanto à adoção da quarentena às tripulações dos navios, medida encarada como causadora de problemas políticos, econômicos e sociais. 

A falta de estrutura das instituições de saúde também fora explicitada pelo surgimento da pandemia, algo que, nos tempos atuais poderia ser comparado ao saturamento dos leitos de UTI, o que motivou inúmeras ações de isolamento social, mal compreendidas por parcelas da população no combate à pandemia COVID-19. 

Havia também uma insidiosa campanha da imprensa que criava obstáculos às ações das repartições de saúde, além das limitações de materiais e pessoal. Tais obstáculos se somavam à atuação do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, destinando recursos às ações de saúde em menor escala que o necessário, sem observância de critérios técnicos, mas políticos. 

Tais características da condução política do combate à pandemia nos remetem diretamente às observadas em nosso país por conta do combate à COVID-19, quando Ministros da Saúde foram substituídos, não por questões técnicas, mas exclusivamente políticas.