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Indaiatuba, 02 de Dezembro de 2020
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Publicado em 24/11/2020 às 09:03:00
Por: Dr. Francisco Carlos Ruiz -
Categoria: Notícia em Destaque
E a causa da Febre Amarela?


Se dúvidas havia quanto ao tratamento dos “amarelentos”, imagine-se quanto à etiologia da febre amarela. De acordo com o Dr. Odair Franco, na segunda metade do século XIX, não se podia mais atribuir a febre amarela à vontade divina ou à “pestilência dos sínocos podres”, como no início da epidemia em 1865. O conhecimento médico havia se vinculado irreversivelmente à ciência e ao pensamento positivista. Médicos procuravam por todos os meios uma causa concreta e demonstrável da doença.
Em 1850 a Comissão Central de Saúde Pública, composta por eminentes médicos do Rio de Janeiro, apontava as causas da febre amarela: “indigestões, supressão da transpiração, exposição à chuva, à umidade, ao sereno da noite e à insolação...As fadigas do corpo e do espírito, as contrariedades morais, as paixões violentas, o terror, etc., também concorrem muito para o seu desenvolvimento”. Como se observa, os fatores atmosféricos eram ressaltados, o que incluía as observações do médico alemão Robert Christian Lallemant, que atribuía á falta de trovoadas, de chuvas e pelo calor aumentado, fato efetivamente ocorrido no verão de 1849-1850.
Por quê a seca? Possivelmente a chuvas promovessem a renovação dos depósitos de água que diminuiria a proliferação dos insetos. De fato, chuvas intensas faziam com que as águas pluviais levassem os focos de mosquitos transmissores da doença, mas nenhuma hipótese efetivamente ligada a eles àquele tempo. Segundo Dr. Odair, “houve quem, acreditando nessa teoria, se propusesse a produzir trovoadas artificiais montando acumuladores de grande capacidade em tôrno da cidade, devendo vir a energia elétrica de poderosa fonte produtora”.
Torres Homem, professor de Clínica Médica da Faculdade, reconhecia a importância dos fatores climáticos na propagação da doença, mas adotava ainda a teoria miasmática como etiologia, embora reconhecesse: “reina ainda na ciência a mais completa ignorância”. Acreditava o professor que a doença decorria de um miasma originado pela decomposição de matérias orgânicas, vegetais e animais, sendo a mesma natureza do miasma, aquele que produz as “febres paludosas”, o miasma que produz o tifo.
Os médicos se dividiam em duas correntes quanto à atribuição das causas da febre amarela. Havia os contagionistas e os não-contagionistas. Entretanto, como ressalta o Dr. Odair Franco, a interpretação que davam à palavra infecção era diferente do conceito atual. Infecção poderia ser interpretada como uma forma de propagação da doença e também como uma causa inerente aos miasmas e eflúvios.
Havia eminentes médicos em ambas as correntes. Em favor dos contagionistas havia o argumento do “transporte da doença pelos navios, o que exigia a quarentena e isolamento dos doentes”. Do outro lado, os não contagionistas tomavam por base em sua tese o fato de que os estrangeiros abastados retiravam-se para lugares elevados como Tijuca, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo e não se tinha notícias de que a epidemia tivesse se desenvolvido nesses locais que acolhiam os “amarelentos”. Na verdade, como lembra Dr. Odair Franco, a discussão era inócua, já que não estavam claros os conceitos de infecção e contagiosidade.
Outra observação, no sentido de uma causa não contagiosa para a doença, decorreu do fato de que no Hospital da Misericórdia e na Casa de Saúde de Nossa Senhora d’Ajuda, segundo Dr. Torres Homem, não houve transmissão da doença por doentes de febre amarela que foram acomodados nos mesmos quartos e que eram enfermos de outras doenças.
Outra importante constatação foi feita pelo médico Emílio Ribas, o qual, em 1896, observou que a epidemia ocorrida em Jáu-SP, com crianças órfãs no Hospital do Isolamento, que estava localizado a 3 km da cidade, não transmitiam a doença a outras crianças. “Essa observação – disse ele – calou no meu espírito, e foi inteiramente contrária à teoria do contágio direto da febre amarela, do doente à pessoa sã”, comentou. Nos EUA, os médicos Dr. Nataniel Potter e Dr. Jean Devèze, declaravam que se tratava de uma doença não contagiosa, porém as controvérsias entre contagionistas e não-contagionistas somente foi sanada a partir dos trabalhos de Pasteur, quando a etiologia passou a balizar-se pelos microorganismos.
No Brasil, foi o professor Domingos José Freire Júnior, da cátedra de Química Orgânica e Biológica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, lançando o livro “Recueils des Travaux Chimiques suivis de Recherches sur la Cause, la Nature e le Traitement de la Fièvre Jaune” (escrito em francês para ter maior penetração na comunidade acadêmica), que apontou a causa da doença como decorrente da infecção causada pelo Cryptococcus xanthogenicus, um “micróbio da espécie das algas”. Com autorização do Ministro do Império (não havia uma agência de vigilância sanitária), o Dr. Domingos preparou e aplicou uma vacina em 2.418 pessoas, chegando a afirmar ótimos resultados.
Antecipando a discussão sobre a obrigatoriedade da vacina, tema sempre recorrente, o Dr. Barata Ribeiro propôs imunização obrigatória pela mesma vacina, sendo sua proposta recusada pela Sociedade de Medicina. Posteriormente, o Prof. Nuno de Andrade constatou que algumas pessoas vacinadas contraíram a doença e morreram.