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Indaiatuba, 03 de Março de 2021
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Publicado em 18/02/2021 às 18:54:00
Por: Dr. Francisco Carlos Ruiz - Presidente
Categoria: Notícia em Destaque
Da perseverança de Finlay ao trabalho científico de Walter Reed


A grande discussão que persistia nas últimas décadas do século XIX em relação à contagiosidade da febre amarela se dava entre os não-contagionistas e contagionistas, sendo que estes acreditavam no contágio entre humanos. 
Na Conferência Sanitária Internacional, realizada em Washington em 1881, o Dr. Carlos Juan Finlay, representante da delegação cubana, expôs sua teoria afirmando ser necessário a presença de um agente transmissor independentemente da enfermidade e do enfermo para que a doença fosse transmitida a um homem são. Acreditava, portanto, que qualquer medida para conter a transmissão da doença seria ineficaz se não envolvesse o controle do agente transmissor. 
Sua teoria, entretanto, foi recebida com “fria indiferença”, conforme Dr. Odair Franco. Dr. Finlay, por sua vez, continuou suas pesquisas em Cuba, contrariando a ideia de que a febre amarela seria uma doença de adaptação, já que acometia principalmente os estrangeiros, poupando nativos. Sua intuição o levou a defender a ideia de que o transmissor seria um mosquito e sua disseminação estaria vinculada à distribuição da doença.
Suas pesquisas em relação aos mosquitos o levaram a duas espécies que poderiam estar relacionadas à doença e que seriam o Culex quinque fasciatus e o Cules fasciatus. Este último foi conhecido pelos nomes de Stegomyia fasciata e Aedes aegypti. Observou especialmente que este era encontrado nas casas de enfermos da febre amarela e que ao contrário, o Culex quinque fasciatus era observado nas residências não atingidas pela doença.
Considerando que o Culex fasciatus era o único transmissor da febre amarela, promoveu a experimentação direta, conseguindo inicialmente cinco indivíduos que se deixaram picar por mosquitos que haviam se alimentado do sangue de doentes. Como resultado, todos desenvolveram a doença, ainda que com graus variados de acometimento.
Persistindo nos estudos e na defesa de sua teoria, Dr. Finlay a apresentou no Congresso de Higiene e Demografia realizado em Budapeste em 1894, bem como tentou convencer o Governo dos Estados Unidos a executar um plano de controle da doença em Havana, sendo igualmente ignorado. 
A confirmação de sua teoria veio por meio de um trabalho mais profundo que foi realizado pela Comissão de Saúde do Exército Americano, sob o comando de Walter Reed. Tal estudo provocou dúvidas sobre a teoria da transmissão da febre amarela pelo mosquito. Uma resolução do XIV Congresso Internacional de História da Medicina, realizado em Roma no ano de 1954, reconheceu definitivamente que o Dr. Finlay foi o descobridor do agente transmissor da febre amarela, bem como identificou a necessidade de saneamento no seu controle. 
Ao término da guerra hispano americana, a ilha de Cuba estava sob o controle dos EUA, porém soldados americanos continuavam sendo vítimas da febre amarela. Na tentativa de encontrar um meio de controlar a doença, foi nomeado o major médico Walter Reed, coordenador de uma comissão de pesquisa para encontrar a etiologia e um meio de controlar a doença na ilha.  As pesquisas em relação a possíveis causadores da febre amarela, como Bacillus icteroides e o Bacillus X havanensis, resultaram infrutíferas e resolveu-se procurar o Dr. Carlos Juan Finlay, já com 67 anos de idade, o qual mantinha sua posição em relação à transmissão da doença por um mosquito. 
Walter Reed, assim como o Dr. Finlay, observaram que pessoas eram acometidas pela doença sem contato com doentes, ao contrário daqueles que cuidavam dos infectados nas enfermarias. A comissão de pesquisa decidiu por dar início às provas experimentais, o que não se configurou uma tarefa fácil, uma vez que era de conhecimento geral que as estatísticas demonstravam alta mortalidade pela infecção. Walter Reed persistiu nos experimentos e identificou que de fato o adoecimento estava relacionado à picada por inseto que havia picado o doente. 
Em 1901, no Congresso Pan-Americano realizado em Havana, Dr. Reed descreveu suas experiências e postulou que o mosquito Culex fasciatus seria o hóspede intermediário do parasita da febre amarela, o qual seria transmitido por meio de uma picada do mosquito contaminado ao indivíduo não imune. Demonstrou também que havia um período para que o mosquito fosse capaz de transmitir a doença, bem como a impossibilidade de transmitir a doença por roupas de cama, vestes ou qualquer objeto de contato dos enfermos, mas que esta poderia ser transmitida pela injeção subcutânea de sangue de um infectado. Observou e relatou ainda que uma casa somente poderia ser considerada infectada pela febre amarela quando em seu interior fossem encontrados mosquitos contaminados. 
Tentativas foram feitas de vacinação pelo Dr. Finlay com a inoculação de mosquitos infectados, porém a baixa eficiência e três resultados fatais fizeram com que a proposta fosse abandonada. Inegável, porém, a iniciativa e perseverança do Dr. Finlay, bem como a pesquisa com critérios científicos empreendidas pela comissão de pesquisa sob a coordenação do Dr. Walter Reed.