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Indaiatuba, 22 de Setembro de 2020
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Publicado em 18/09/2020 às 09:24:00
Por: Dr. Francisco Carlos Ruiz -
Categoria: Notícia em Destaque
Breves relatos de doenças infectocontagiosas no Brasil – Parte IV


A história das epidemias segue se repetindo. Conforme observamos na atual pandemia provocada pelo coronavírus, a reação de setores da população e até mesmo do Governo, contrários às medidas sanitárias propostas por médicos, representa uma repetição da história de outras epidemias. No caso da epidemia de febre amarela ocorrida no Brasil no final do século 17, foi o Senado que se opôs às medidas sanitárias do Governo da Província. Foram necessárias medidas como multas e outras punições severas para que a população aceitasse as determinações.
Outro aspecto importante numa epidemia causada por agentes infecciosos desconhecidos diz respeito ao tratamento recomendado para a doença. No caso da pandemia Covid-19, muito se discutiu e se debateu em relação ao tratamento adequado, o que incluiu posições extremadas de alguns médicos, ignorando o conhecimento estabelecido conforme divulgado pelas sociedades de especialistas. Até mesmo vermífugos foram defendidos no tratamento de uma doença viral. Tal fato, entretanto, não foi inusitado. O mesmo se deu nas primeiras epidemias de febre amarela.
Conforme Dr. Odair Franco, em 1691 houve uma viagem do navio “Sacramento e Almas”, partindo do Brasil com destino a Portugal, na qual morreram cinco tripulantes pela “moléstia da terra”.
Um dos tripulantes era Antônio Brebon, originário da França, que observou, ainda em Pernambuco, “com desprêzo e estranheza que o Cirurgião ora sangrava ora aplicava cáusticos com a vacilação própria do Empírico: evidência bastante de que não tinha teoria alguma acêrca da moléstia”. Brebon não era médico e, uma vez ocorrido o quarto óbito na viagem, sem qualquer benefício com os medicamentos utilizados, solicitou permissão ao comandante do navio para “abrir aquele corpo e fazer nêle anatomia”.
Constatou o jovem tripulante de apenas 24 anos de idade, que não havia lesões nos pulmões ou no baço do cadáver, mas que o fígado estava com a cor diversa da habitual e que havia uma parte deste que não estava “corrupto”, acreditando que a “podridão” estava no fígado. Relatou que a bexiga estava seca (desidratação?) e que o estômago apresentava “membranas com humor viscoso de côr negra a modo de ferrugem e algumas lombrigas grandes e pequenas da qualidade das compridas”. Nos intestinos encontrou mais lombrigas e humor negro, as quais acreditou que poderiam “picar no dito fígado”. Concluindo a autópsia em alto mar, a qual “não se fez mais individual exame para não causar horror na gente da embarcação”, emitiu o “laudo”: a doença era causada por lombrigas.
Diante de suas certezas empíricas, Antônio Brebon passou a tratar doentes por um processo próprio: “Emplastros, a que chamavam vesicatórios, na nuca, nos buchos dos braços e curvas das pernas divertir (dividir?) as dores que nas juntas, cabeça e mais partes do corpo, padeciam os enfermos”. Prescrevia também algumas bebidas para tratar verminoses e se orgulhava: “com este tratamento, não faleceu mais ninguém”. Nada muito diferente das declarações de alguns médicos que, na atual pandemia, declararam que trataram centenas de pacientes com cloroquina sem nenhuma morte.
De acordo com Dr. Odair Franco, a corte ficou impressionada com a “descoberta do tratamento” e Sua Majestade enviou ao Governador da Bahia o “juramento”, no qual Brebon “se publicou descobridor da cura deste contágio”.
Tão impressionantes constatações e publicações fizeram com que Brebon fosse mandado ao Recife recebendo o diploma de Cirurgião após três anos de práticas supostamente médicas, ainda que se apresentassem os protestos de Ferreira da Rosa contra “os imperitos que cometem tantos erros quantas vezes visitam os doentes”.
Apesar dos vermífugos milagrosos, as doenças “contagiosas e pestilenciais” continuavam a atingir a população de Pernambuco, o que fez com que o governador, Marquês de Montebelo, determinasse que o médico Ferreira Rosa fizesse “um papel” (paper?) sobre o “contágio”. Sendo assim, conforme Dr. Odair Franco, o Dr. Ferreira Rosa foi o primeiro médico a escrever um livro sobre a febre amarela, definindo-a como “febre pestilente do gênero dos sínocos (inflamações) podres, a mais cruel doença que tem o mundo”.
Difícil dizer qual é a doença mais cruel do mundo. O que se pode afirmar é que a doença mais cruel do mundo é aquela que atinge a comunidade na qual se vive. A letalidade, o sofrimento físico e os impactos sociais causados são alguns dos elementos que podem ser considerados, mas o que não se pode é desconsiderar esses mesmos componentes de uma epidemia e considerá-los uma “gripezinha”, contrariando números e menosprezando o sofrimento causado a inúmeras famílias.
A história mostra que não basta uma crença, ou uma constatação limitada por uma pesquisa ou “suposta pesquisa” para que se possa declarar como conhecida a fisiopatologia e terapêutica definitiva para determinada doença. Ao contrário, muitos estudos e observações são necessários para que se promova algum avanço no conhecimento científico, evitando-se práticas inúteis, as quais, muitas vezes, retiram a ênfase necessária na prevenção de doenças e no tratamento dos doentes.