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Indaiatuba, 24 de Fevereiro de 2020
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Publicado em 20/02/2020 às 16:00:00
Por: Dr. Francisco C. Ruiz - Psiquiatra
Categoria: Notícia em Destaque
Estamos vivendo uma epidemia de ansiedade?


Nada mais comum que escutarmos que este é o século da ansiedade. Teria sido o século passado o século da depressão? Nunca se ouviu falar tanto em Transtorno de Ansiedade e Transtorno de Pânico. Pesquisas indicam que o índice de Transtornos de Ansiedade no Brasil é cerca de três vezes superior ao indicado no mundo. Será o Brasil um país mais “ansiogênico” que outros ou os indicadores podem não estar revelando a situação real?
O medo acompanhou o ser humano em sua trajetória ao longo da história. O medo de ataques por outros animais, outros grupos humanos, outros indivíduos dentro do mesmo grupo, intempéries, escassez de alimentos e doenças sempre causaram medo e ansiedade. O temor a situações possíveis e futuras representa a natureza da ansiedade, seja este temor real ou imaginário.
Se pensarmos que o temor de situações possíveis pode levar a cuidados e comportamentos de prevenção a estes eventos, a ansiedade pode representar um fator adaptativo em face dos riscos à segurança e à vida. Se, por outro lado, o temor e a ansiedade estiverem relacionados a situações improváveis e levar a atitudes defensivas desnecessárias, podem resultar em comportamentos inadequados e pouco adaptativos.
O fato é que os riscos aos quais o ser humano está exposto se modificaram ao longo de sua história. O risco de ataques por animais se reduziu ou quase desapareceu, principalmente nos grandes centros urbanos. A escassez de alimentos em função do clima pode ter diminuído, mas permanece em razão do temor de oscilações da economia que podem levar a recessões e possivelmente dificuldades na obtenção de alimentos e precarização nas condições gerais de vida.
Riscos de guerras parecem ter diminuído em razão de organizações internacionais que regulam as relações entre países, o que reduz o risco de invasões territoriais por outros povos, mas a criminalidade tem aumentado em diversos países, aumentando o risco de agressões à vida em diversos aspectos.
Diante de tantas mudanças em relação aos riscos experimentados pelas sociedades em termos gerais, seria possível afirmarmos que os riscos à vida e à segurança nos dias de hoje são maiores que no passado? Difícil fazer tal afirmação. A vida tem se tornado mais próspera e confortável como demonstram muitos indicadores. A expectativa de vida tem aumentado, inclusive em países subdesenvolvidos, bem como caiu a mortalidade infantil e a ocorrência da desnutrição e da fome.
A vida é mais “acelerada” nos grandes centros urbanos? Sem dúvida sim. Porém temos nos grandes centros a possibilidade de compras “on-line”, recebermos comida por entregadores que nos servem em nossas casas, além de realizarmos o nosso trabalho sem sairmos de casa e uma infinidade de ações via “WEB”. Quem não lembra das filas para pagamento de boletos em caixas de Bancos?
Há muitas dificuldades que nossos avós e, mais remotamente, nossos antepassados, não enfrentaram, mas há compensações que nossos ancestrais não poderiam sequer imaginar. O fato, entretanto, é que os índices de Transtornos de Ansiedade na população em geral e no Brasil são extremamente elevados. Qual a razão?
Uma hipótese a ser verificada é que a condição psíquica classificada como Transtorno de Ansiedade não era conhecida do grande público há algumas décadas. Tal fenômeno também ocorreu com a depressão, a qual necessitava ser explicada aos pacientes, havendo grande dificuldade em entendê-la como uma patologia. À medida que o conhecimento destas doenças se tornou comum, estas patologias passaram a ser identificadas com maior frequência, inclusive com o risco do “diagnóstico excessivo”, ou seja, situações nas quais o sintoma ansiedade poderia ser constatado como uma ocorrência própria de determinadas situações de vida passaram a ser entendidas como doença ou patologia.
O resultado é que saímos de uma situação onde os Transtornos de Ansiedade não eram identificados por desconhecimento para outra na qual a ansiedade, que decorre de situações normais dos desafios da vida, passaram a ser tratadas como doenças. Tal realidade, entretanto, não deve se constituir em obstáculo para que possamos identificar e tratar as pessoas que apresentam efetivamente a ansiedade como doença. Este é o desafio que vivemos na atualidade.