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Indaiatuba, 02 de Junho de 2020
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Publicado em 21/05/2020 às 15:34:00
Por: Dr. Francisco Carlos Ruiz - Presidente
Categoria: Notícia em Destaque
A pandemia e o conhecimento científico


O enfrentamento da pandemia tem gerado grandes debates quanto à melhor forma de evitar a contaminação maciça e repentina da população brasileira. Fala-se muito no “achatamento da curva”, o que parece razoável a princípio, mas tem levado a posições apaixonadas em relação a sua execução.
Consideram muitos que “todos serão contaminados de alguma forma e em algum tempo” e que “se a economia parar morreremos de fome”, entre outros argumentos para que não se promova o isolamento social. Há ainda aqueles que defendem o isolamento de alguns, mas não da grande maioria da população, também chamado isolamento vertical.
A despeito destes questionamentos, a Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde, entidades médicas e outras sociedades científicas da maioria dos países recomendam: o isolamento social é a única forma de enfrentar a pandemia e evitar o colapso dos sistemas de saúde públicos e privados e o caos na sociedade.
A questão a ser considerada é: “o que diz a ciência?”.
A ciência, ou melhor dizendo, o método científico foi crucial na evolução da humanidade e vale a pena conhecer algo a seu respeito. Enfrentamos a peste bubônica, num momento histórico em que sequer conhecíamos o termo “ciência”. Por outro lado, enfrentamos a chamada “gripe espanhola”, que de espanhola não tinha nada, e vivemos os mesmos dilemas em relação à chamada “ciência”. Vale lembrar ainda a ”Revolta da Vacina” e a “Liga Anti-Máscara”, nas quais uma parcela da população se revoltou contra medidas sanitárias.
Muitas vezes o conhecimento científico contraria o senso comum. A título de exemplo, vale lembrar a ideia que sempre tivemos de que os pneus mais novos e em melhor estado do veículo devem ficar nas rodas da frente. Ocorre que repetidos experimentos demonstraram que é mais seguro deixar os melhores pneus nas rodas traseiras dos veículos. Na Medicina se dá o mesmo quando as pessoas alimentam a ideia de que se estão urinando pouco, devem tomar diuréticos, quando, na verdade, o conceito está equivocado e a questão se revela muito mais complexa.
O conhecimento científico ou o conhecimento derivado da aplicação do que se acordou denominar método científico, envolve a produção de uma determinada teoria científica. Para que essa teoria científica seja elaborada é preciso que estejam presentes determinados elementos no estudo. É necessário que o conhecimento seja adquirido de forma sistemática, organizada e controlada. Os fatos necessitam ser verificáveis e que possam ser repetidos, além de que envolvam uma explicação lógica e objetiva, submetendo-se a uma análise lógica.
Dois critérios principais na utilização do método científico são: o método da dedução racional e o método da verificação experimental, que dão origem aos métodos dedutivo, hipotético-dedutivo, indutivo e outros. Karl Popper, filósofo da ciência, estabeleceu ainda um critério considerado importante para que determinada teoria seja considerada científica que é o critério da refutabilidade ou falseabilidade. Neste critério, determinada teoria será científica se puder ser refutada pela experiência.
Há uma outra ideia ainda, derivada do senso comum, que supõe que uma teoria pode existir apenas no campo do pensamento e da imaginação dos seres humanos e que seria um conceito oposto ao conceito de prática. Há que se lembrar do conhecido título de um livro de Joelmir Betting: “A Teoria na Prática é outra”. Otaviano Pereira esclarece que não é a teoria que se contrapõe à prática, mas a abstração e afirma que a teoria não passa de abstração se for tomada fora do horizonte da prática que a fundamenta e a justifica.
As questões relativas ao enfrentamento da pandemia provocada pela COVID-19 devem ser enfrentadas de acordo com o conhecimento científico disponível. A experiência mostra que o isolamento social e as medidas de higiene (máscaras, álcool em gel, etc.) representam as únicas medidas úteis, antes que uma vacina eficaz esteja disponível. Países desenvolvidos como Alemanha, Inglaterra, França, Espanha, Itália e EUA adotaram as mesmas medidas. Não são ações “inventadas” por governadores de oposição. Temos até que, mesmo o caso da Itália, no qual o governo pediu perdão à população por não ter adotado as medidas de isolamento de forma mais precoce, o que teria poupado inúmeras vidas.
É evidente que o isolamento não poderá ser mantido por um longo tempo, porém a retomada precoce de todas as atividades pode produzir danos ainda maiores à economia e às pessoas. É preciso que todas as medidas sejam tomadas com base na experiência acumulada e no bom senso, sem paixões de ordem ideológicas.
Não se trata de uma discussão de natureza política, no formato esquerda e direita, mas na busca das melhores ações para que o país consiga superar a pandemia e os problemas econômicos decorrentes desta. As decisões que precisam ser tomadas envolvem variados campos do saber, mas o conhecimento científico da Medicina e Epidemiologia não podem ser negligenciados.